O Médico, o Santo e o Milagre: A bela amizade entre São Pio e o Dr. Sanguinetti

Conheça a trajetória do médico anticlerical que, após um único olhar de Padre Pio, transformou sua vida para sempre e se tornou o pilar fundamental na construção de um dos maiores hospitais da Europa.

Antes de sua conversão, Sanguinetti era um homem com tendências anticlericais. Ele só aceitou ir a San Giovanni Rotondo como presente de aniversário de casamento para sua esposa, Dona Emília, afirmando a ela: "Vou apenas para ser o seu motorista e mais nada!".


Quando Padre Pio afirmou que ele seria o construtor do hospital, o médico argumentou que vivia apenas do seu salário e não tinha recursos. Poucos meses depois, Sanguinetti ganhou uma quantia expressiva na loteria nacional, compreendendo que este era o sinal de Deus e a provisão para abandonar tudo e se juntar à missão do santo.


Apesar de atuar como diretor, mestre de obras e administrador de toda a construção, o Dr. Sanguinetti cultivava uma profunda humildade, referindo-se a si mesmo e aos operários do canteiro de obras simplesmente como "formigas de São Francisco".


Anos antes de ir para o Gargano, ele fundou um grupo de doadores na Toscana para salvar feridos da Segunda Guerra e, mais tarde, estruturou o Banco de Sangue da Casa Alívio do Sofrimento para doações e tipagens totalmente gratuitas.


A sua contribuição não foi apenas braçal e estrutural. A pedido e sob a inspiração de Padre Pio, foi Sanguinetti quem escreveu o primeiro estatuto oficial dos Grupos de Oração em 1951, ajudando a organizar o movimento no mundo todo.


Na última vez que se viram, o santo prolongou a conversa, olhou demoradamente para Sanguinetti e disse: "Quem sabe quando e onde iremos nos encontrar novamente?". Seis semanas depois, o doutor faleceu de um mal súbito e Padre Pio já sabia que ele morreria.


Quem contempla hoje a grandiosidade da Casa Sollievo della Sofferenza (Casa Alívio do Sofrimento), erguida nas montanhas áridas de San Giovanni Rotondo, pode não imaginar que um dos maiores hospitais da Europa nasceu não apenas das orações de um santo estigmatizado, mas também das mãos calejadas e do coração convertido de um médico do interior. Esta é a história do Dr. Guglielmo Sanguinetti, o escudo, o cajado e o construtor incansável do grande sonho de São Pio de Pietrelcina.

De Coração Endurecido a Peregrino da Graça Celestial

Nascido em Parma, em 1894, o Dr. Guglielmo Sanguinetti construiu sua vida como um dedicado médico rural na região de Mugello, na Toscana. Homem bom e caridoso com seus pacientes, carregava, no entanto, uma sombra em sua alma: devido a decepções passadas, havia se tornado um homem profundamente anticlerical, distante da Igreja e fechado para o sobrenatural. Para ele, um bom médico deveria acreditar apenas na ciência exata.


Sua esposa, Dona Emília, sofria com a distância do marido em relação à fé. Ao se aproximar o aniversário de casamento, o Doutor, que a amava profundamente, perguntou-lhe o que desejava de presente. Com coragem, ela pediu: "Uma viagem para visitarmos o Padre Pio!"

Sanguinetti hesitou, achou injusto, mas acabou cedendo por amor à esposa. Contrariado, declarou a célebre frase: "Vou apenas para ser o seu motorista!"

Mas os caminhos da Providência são irresistíveis. Na noite de 27 de maio de 1935, aquele homem duro e apegado aos seus preconceitos cruzou o olhar com o frade capuchinho. Sanguinetti confessou-se com o Padre Pio e, naquele momento, as escamas caíram de seus olhos. Ele viu no olhar do Santo algo que nunca vira em toda a sua vida. O médico, que fora a San Giovanni Rotondo apenas como "motorista", retornou como um filho espiritual, profundamente tocado pela Graça de Cristo.


O Chamado e a Providência Divina

A conversão não mudou apenas o seu coração; mudou o seu destino. Certo dia, Padre Pio partilhou com ele o seu desejo de fundar um grande hospital naquela região pobre e esquecida, e lançou-lhe o chamado:

"Você, Doutor, é o homem que virá aqui para construí-lo."

Estupefato, Sanguinetti respondeu: "Mas, Padre, eu sou apenas um médico do interior! O senhor necessita de um arquiteto ou de um engenheiro. E mesmo que tivesse as qualificações, o único dinheiro que tenho é o que ganho com meu trabalho."

Com a serenidade de quem enxerga o Céu, o Santo respondeu: "Isso será providenciado."

E assim foi. Poucos meses depois, o Dr. Sanguinetti ganhou uma grande soma em dinheiro na loteria nacional. Ele imediatamente compreendeu o recado do Céu. Com uma parte, garantiu o sustento de sua família em Florença; com a outra, partiu definitivamente para a montanha gargânica, ouvindo as palavras do Padre Pio: "Devemos fazer três tabernáculos, três tendas: uma para Jesus, uma para ti e uma para mim! [...] Fica aqui para sempre!"

O Construtor do Alívio do Sofrimento

Por sete anos e meio, a partir da primeira marretada na pedra em 1947, o Dr. Sanguinetti deixou de ser apenas médico para se tornar o braço direito de Padre Pio. Ele foi diretor, mestre de obras, motorista e negociador implacável na compra de materiais. No inverno ou no verão, vestindo roupas de operário, estava sempre presente na obra. Plantou milhares de árvores, transformando a terra árida em um verdadeiro jardim umbro, onde hoje os peregrinos rezam a Via Sacra.


Mais do que tijolos, Sanguinetti ajudou a edificar a obra espiritual. Foi ele quem redigiu, sob a orientação de Padre Pio, o primeiro estatuto dos Grupos de Oração, que hoje se espalham aos milhares pelo mundo. Fundou e dirigiu a revista oficial da Obra e implantou o banco de sangue gratuito do hospital, guiando-se sempre pela caridade cristã. Sua dedicação era tamanha que ele se autodenominava, junto aos operários, como simples "formigas de São Francisco", conscientes de que serviam a uma ideia muito maior do que eles mesmos.

Uma Amizade Forjada no Céu

A ligação entre os dois era de uma intimidade comovente. Na presença do Dr. Sanguinetti, o Padre Pio sentia-se em paz. Não precisava esconder suas chagas ou se defender da curiosidade alheia. O médico era de uma lealdade absoluta, jamais recusando uma tarefa, por mais pesada que fosse.


O Doutor teve a alegria de ver o primeiro Poliambulatório inaugurado em julho de 1954. No entanto, Deus tinha outros planos para o seu incansável servidor. Em uma de suas últimas despedidas, Padre Pio olhou demoradamente para Sanguinetti e disse, com tom profético: "Quem sabe quando e onde iremos nos encontrar novamente?"

Poucas semanas depois, em 6 de setembro de 1954, o Dr. Sanguinetti faleceu subitamente de um ataque cardíaco. Ele não viu a inauguração total do hospital, mas sua missão na terra estava cumprida. Quando questionaram São Pio sobre o porquê de uma partida tão repentina de alguém tão forte e necessário para a obra, o Santo respondeu com a sabedoria dos que veem com os olhos da eternidade: "Diferentemente de nós, Deus viu que ele já estava pronto."

O Legado

Dr. Guglielmo Sanguinetti nos ensina que Deus não chama os capacitados, mas capacita os escolhidos. Aquele que foi a San Giovanni Rotondo apenas para "ser motorista" acabou conduzindo milhares de almas ao alívio físico e espiritual. Que a sua história e a sua amizade com São Pio de Pietrelcina nos inspirem a dizer o nosso "sim" a Deus, entregando nossas vidas e nossos talentos para a construção do Seu Reino de amor e misericórdia.