
Acesse o menu de forma rápida aqui ao lado
Não foi só a alma de Catarina de Gênova que ardeu no fogo do amor divino. Testemunhas diziam ver o mesmo fogo sair do corpo dela. Durante horas de oração, no silêncio do próprio quarto ou no meio dos doentes que cuidava, Catarina de Gênova entrava em êxtase. Quem estava por perto contava depois algo que soa quase impossível de acreditar.
Parecia haver um incêndio saindo daquele corpo. Não era imaginação piedosa de biógrafo. Era o relato repetido de quem viveu ao lado dela.
Catarina não escreveu apenas sobre o Purgatório como doutrina. Ela viveu, na própria carne, algo muito parecido com aquele fogo, ainda antes de morrer. Esta é a história de um corpo que carregou, literalmente, o peso da purificação que sua alma descreveu depois em palavras.
A austeridade de Catarina impressionava até os padrões exigentes de sua época. Ela passou vinte e três quaresmas e outros tantos adventos praticamente sem tomar alimento algum. Recebia a comunhão todos os dias e, de tempo em tempo, bebia apenas um copo de água misturado com um pouco de vinagre e sal.
Não era um exercício de força de vontade. Era resposta a um amor que ela sentia queimar por dentro e que não encontrava outra forma de corresponder. O corpo, para Catarina, deixou de ser obstáculo e virou instrumento de oferta.
Cada jejum era uma frase na mesma conversa silenciosa que ela mantinha com Deus desde aquela tarde de confissão, em 1473, quando ouviu dentro de si a frase que resumiu o resto de sua vida: «Não mais mundo, não mais pecado.»
Em 1497 e novamente em 1501, a peste devastou Gênova. Enquanto muitos fugiam da cidade, Catarina permaneceu no Hospital de Pammatone, onde já servia havia anos, cuidando pessoalmente dos doentes mais abandonados.
Seu marido, Giuliano Adorno, um homem que antes vivera entre jogos e negócios sem rumo espiritual, aceitou viver com ela em castidade, entrou para a Ordem Terceira de São Francisco e passou a ajudá-la no trabalho com os enfermos até morrer, em 1497.
A conversão de Giuliano foi consequência de viver ao lado de uma mulher cujo amor por Deus havia deixado de caber apenas dentro dela. Catarina venceu com doçura a amargura e a rebeldia dos pacientes mais infelizes, sem jamais se afastar do hospital nos anos em que a peste tornava cada visita um risco real à própria vida.
A partir de 1499, Catarina entrou naquilo que a tradição espiritual chama de via unitiva, uma união com Deus tão profunda que praticamente apagava a distância entre a alma e Aquele a quem ela amava.
Foi nessa fase que os fenômenos místicos se multiplicaram. As mesmas testemunhas que descreviam o fogo saindo de seu corpo em oração relatavam também dores físicas que nenhum médico conseguia explicar, como se a purificação que sua alma vivia por dentro precisasse, de algum modo, atravessar também a carne.
Ela mesma tentou explicar o que sentia. Disse, em certo momento, que apesar de sofrer, sem remédio algum, tormentos excessivos no corpo, encontrava o próprio espírito cheio de coragem, a ponto de não conseguir chamar aquilo de sofrimento. Parecia nadar em uma alegria contínua, tão grande, que não sabia como expressar.
Os últimos nove anos de vida de Catarina foram marcados por uma enfermidade que os médicos de Gênova nunca souberam nomear. Não havia remédio, não havia diagnóstico, não havia explicação natural suficiente. Foi justamente nesse período de isolamento físico e espiritual, muitas vezes sem sequer poder contar com seu confessor por perto, que ela produziu boa parte do que ficou registrado sobre suas experiências interiores.
O corpo doente tornou-se, para Catarina, extensão do mesmo Purgatório que ela descrevia para as almas do além. Padecia sem descanso e, ao mesmo tempo, permanecia unida a Deus com uma paz que desconcertava quem a observava de fora.
No dia 14 de setembro de 1510, festa da Exaltação da Santa Cruz, Catarina falou com mais ardor e mais amor do que jamais havia falado. No dia seguinte, um domingo, perguntaram se ela desejava comungar. Arrebatada em êxtase, ergueu um dedo em direção ao céu, como quem indica que, naquele instante exato, estava sendo chamada para o banquete eterno.
Cantando com voz suave as últimas palavras de Cristo na cruz — «Senhor, em vossas mãos entrego minha alma» —, Catarina morreu, consumada no amor de Deus, aos sessenta e três anos. O fogo que testemunhas viram sair de seu corpo em vida havia finalmente encontrado seu destino final.
A vida de Catarina de Gênova mostra algo que a doutrina sozinha nem sempre consegue transmitir. A purificação da alma não é uma ideia abstrata.
Ela custa o corpo, custa o tempo, custa anos de isolamento e dor que ninguém de fora enxerga por completo. E, ainda assim, quem atravessa esse fogo com o coração rendido a Deus encontra, no meio da própria dor, uma alegria que a razão não explica.
As almas do Purgatório atravessam algo semelhante, sem corpo, sem tempo como o nosso, mas com a mesma entrega e a mesma impossibilidade de agir por si mesmas. Diferente de Catarina, elas não têm mais como oferecer um jejum, uma vigília, um sacrifício em nome próprio. Só a oração e o sacrifício de quem ainda vive podem apressar o que falta a elas.
Que Nossa Senhora, que acompanhou de perto cada sofrimento de seu Filho sem jamais duvidar do amor de Deus, interceda por cada alma ainda em purificação. E que Padre Pio, apóstolo incansável do Purgatório, una sua oração à nossa por todas as almas que hoje dependem inteiramente de quem ainda pode rezar por elas.